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sexta-feira, agosto 17, 2007

Bom fim-de-semana!

E aqui está! A pedido de três ou quatro alminhas, aqui está mais uma das inúmeras pérolas daquela mente retorcida, e um bocado labrega, que é Zé Clarmonte.


A carteira de um homem.

"Carteiras de cabedal toda a gente tem. Uma carteira de cabedal (preto ou castanho, tanto faz) é uma questão de estatuto. Significa que o portador deixou a desbotada carteira das Tartarugas Ninja com o fecho de velcro já descosido e adoptou uma espaçosa e reluzente carteira de cabedal (mesmo que seja imitação). Significa que o portador deixou de ser um jovem imberbe para ser um adulto confiante em si próprio, que já pode beber umas bejecas, falar de futebol e, provavelmente, já viu o corpo (ao vivo) de uma mulher nua (que não a sua mãe). E à medida que esse adulto vai crescendo, a sua carteira vai crescendo também. Mesmo que o dinheiro não abunde, e mesmo que seja daquelas pessoas que ainda acha que o melhor local para guardar notas é o bolso da camisa, a outrora pequena carteira torna-se aos poucos num verdadeiro tijolo de quilo e meio. Cartões de crédito desactualizados, dezenas de números de telefone e endereços de e-mail escritos nos mais variados tipos de papel, cartões de vendedores aos quais nunca vão telefonar, autocolantes recebidos em peditórios de associações de reinserção social, calendários de todos os anos desde 1980, boletins de totoloto e euromilhões sem um único número premiado, fotografias da mulher, dos filhos e da namorada do liceu, juntamente com todos os cartões de todas as associações de que o portador faz parte e todos os documentos legais e actualizados, fazem da carteira de um adulto um mistério mais insondável que a mala de uma mulher. Mais misterioso ainda é o facto de conseguirem pôr a carteira no bolso de trás das calças e sentarem-se sem ficarem desnivelados, como quando se está a largar um flato. Ter-se-á a nádega em questão adaptado à forma do enchumaço? Ou a carteira encolhe por artes mágicas quando metida no bolso? Só coisas que me ralam...

* * *

Espantei-me quando entrei no consultório do médico. Estava um individuo, que não parecia ter mais de 16 anos a ler uns papéis, com uma carteira de cabedal para aí com 900 gramas pousada na secretária. "Tão novinho e já com uma carteira daquelas. Coitado." pensei eu para mim. Nisto, despedindo-se, apertou a mão ao senhor doutor, meteu a carteira na mochila Eastpak de padrão camuflado e saiu. "Ah, mochila... Assim está bem. Digam o que disserem os jovens de hoje são mais maduros e espertos."

Por Zé Clarmonte in Os Arquivos Sturu, 6 de Setembro de 2006


terça-feira, agosto 14, 2007

A nostalgia de um blogger

A minha primeira experiência blogger começou em Agosto de 2005 com um patético blog "humorístico" de nome Os Arquivos Sturu. Na altura, cada vez que iniciava o Internet Explorer ou o MoZilla, parecia que era possuído(*) por uma entidade espiritual chamada Zé Clarmonte, e era nada mais nada menos que o tipo mais estúpido com quem alguma vez privei. Fazia piadolas, umas sem graça, outras com pouca, de tudo e mais alguma coisa. Inventava argumentos mirabolantes com personagens improváveis, umas mais reais que outras. Arranjou até umas alminhas penadas do mesmo calibre para lhe fazerem companhia e aquele, inicialmente fraquinho, blog ganhou consistência suficiente para sobreviver a mais de 600 posts e 11.000 visitas. No entanto, com o tempo o tal Zé Clarmonte cansou-se de me aparecer e, inadvertidamente, deixou muita gente com saudades. Inclusivamente a mim.

Agora, que tenho um blog mais ou menos sério, visito quase todos os dias os arquivos d'Os Arquivos com aquela lagriminha no canto do olho, com a sensação mista de dever cumprido e vontade de voltar àquela vida irascível e cáustica. Talvez um dia. Talvez. Até mesmo aqui, quem sabe?!

Bom, mas enquanto o Zé Clarmonte que ainda existe em mim vem e não vem, deixo-vos aqui com uma das pérolas produzidas por aquele magnífico espírito mirrado e mesquinho.

O Porquê

"Ontem perguntaram-me porque raio é que eu não saía do desterro onde vivo e ía viver para uma cidade grande, onde há empregos melhores que o meu, mais dinheiro, mais gajas, mais cultura, mais tudo. Eu respondi fazendo uso da minha fabulosa inteligência e da mais rebuscada argúcia: encolhendo os ombros. No entanto hoje, fez-se Luz. Hoje, finalmente descobri o porquê desta minha penosa estadia em tão ermo e desolado lugar. Perto da minha barraquita descobri uma tabuleta, meio comida por líquenes e a outra metade tapada por balsas, que diz somente isto: Rota dos Vinhos do Alentejo."

Por Zé Clarmonte, in Os Arquivos Sturu, 27 de Junho de 2006

(*) Possuído como num exorcismo, não no sentido de sodomia.